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sexta-feira, 7 de outubro de 2016

A origem da 1° international em Lisboa / Carlos Da Fonseca

A origem da 1a international em Lisboa
 o centenário da federação portuguesa
 Carlos Da Fonseca


Introdução

Prefácio à 2.* edição

Cronologia 

As Associações Primitivas

Características do Movimento Associativo

A Fundação da A.I.T. em Portugal

As Relações Internacionais

Da Crise à Reorganização
Anexos.

I- Textos Teóricos
II- Documentos
III- Aspectos de uma Polémica
IV - Elementos Biográficos

Bibliografia

Artigos do Pensamento Social
Principais documentos traduzidos

Bibliografia

 Lisboa : Estampa, 1978 (2a edição)  216 p 



Faz um século que, em Lisboa, a Secção Portuguesa da Associação Internacional dos Trabalhadores fez a sua aparição pública com um manifesto de solidariedade para com os trabalhadores de Sevilha. Este documento, datado de Outubro de 1871, é, por assim dizer, como que a certidão de idade da Secção Portuguesa da Internacional. Porém, se quisermos ser mais rigorosos e respeitar assim o espírito deste internacionalismo centenário mas não morto que animou os seus fundadores, teremos de considerar a existência oficial da Federação de Lisboa como remontando ao dia 10 de Março de 1872. Para além de marcar o primeiro contacto com o Conselho Central .de Londres, esta é a data oficial da adesão da Secção Portuguesa à Internacional.

Falar da Federação de Lisboa sem levantar um certo número de problemas que afectaram a vida da A. I. T. seria particularizar um fenómeno de significado universal e impedir a sua compreensão. Por isso esta simples introdução.

Menos fértil que a estrangeira, a bibliografia portuguesa dedicada a este problema nem por isso se mostrou menos sectária no panegirismo ideológico nem menos inútil no uso constante de lugares comuns. O caminho aqui proposto é o da história científica. Julgamos ser este o únicoque possibilita a saída do beco onde há muito se encontra este capítulo da nossa história social.

O internacionalismo operário nasceu e evoluiu com o desenvolvimento das forças produtivas. Ele é-lhe subjacente, quer dizer, é consequência dos progressos técnicos do capitalismo e da internacionalização do capital. Este paralelismo, que constitui, ao nível teórico, os fundamentos do «Manifesto» de Marx e Engels, impeliu um certo número de operários de vários países, reunidos pelo capitalismo, a confrontarem as respectivas situações socioeconômicas. Aproveitando uma manifestação do internacionalismo capitalista (a Exposição Universal de Londres de 1862), os trabalhadores presentes puderam fazer uma observação determinante: a relação entre a superioridade do nível de vida dos operários ingleses e a acção das Trade-Unions. Das conclusões finais destes contactos resultaram a constante troca de impressões e experiências e uma unificação progressiva dos esforços quotidianos, até aí dispersos ou limitados pelas fronteiras nacionais.

O meeting de Saint-James (1863) a favor da insurreição polaca foi já uma manifestação desse internacionalismo que iria, num futuro breve, assustar a burguesia mundial. Tolain, delegado francês, expõe aos presentes um projecto de criação de uma organização supranacional de tipo operário. Mas só em Setembro de 1864 foi possível ao «movimento real da classe» desembaraçar-se das limitações partícularistas e concretizar o projecto de convergência. Da reunião de Saint Martin's Hall (28 de Setembro) saiu o comité encarregado de elaborar os estatutos da futura associação e o acordo para a realização de um congresso em 1865 (1). Estava assim criada a Associação Internacional dos Trabalhadores, que iria viver pouco mais de uma década, até à Conferência de Filadélfia de 1876.

O que foi a Associação Internacional dos Trabalhadores? Que tendências a dominaram? Qual o número dos seus aderentes? Qual foi exactamente o seu peso real em cada país e no conjunto das nações onde existiu?

Marx definiu-a ao dizer que «a A. I. T. não é filha de nenhuma seita nem de uma teoria. Ela é o produto espontâneo do movimento proletário, ele próprio gerado por tendências naturais e irreversíveis da sociedade moderna». Ninguém exprimiu melhor o conteúdo da A. I. T. que este postulado do homem que foi um dos seus mais notáveis militantes.

Se a definição é clara, a sua composição é extremamente complexa. Poderíamos certamente dividi-la em dois grandes campos opostos: o dos «autoritários» e o dos antiautoritários». Mas estas categorias demasiado abstractas encerram conceitos imprecisos e sem significado político ou histórico real. A A. I. T. foi uma miscelânea de partidários de Owen, Mazzini, Proudhon, Blanqui, Lassalle, Marx, Bakunine, trade-unionistas, cartistas, etc. Só fazendo completamente tábua rasa desta realidade podería-mos aceitar a confortável tese das duas tendências, ditas principais, a «marxista» e a «bakuninista» Estudos recentes (2) provaram que a ideologia das secções de Paris era simplesmente proudhoniana, que a audiência de Bakunine em França, inclusive na revolta (blanquista) de Lyon (28 de Setembro de 1870), foi absolutamente nula; que em Genebra, e não obstante o ruído que ela fez nesta cidade, a aliança nunca teve a mínima importância (o que não sucede em relação ao Jura, onde actuava J. Guillaume). O mesmo se pode afirmar para o «marxismo» em Inglaterra ou na própria Alemanha, onde as secções foram formadas pelo não marxista Becker. Quanto a Portugal, só o desconhecimento total das correntes socialistas poderia atribuir à Secção da Aliança (Secção do Monte Olivete) «uma decisiva influência» (3) sobre o movimento operário. Finalmente, e de acordo com os resultados de trabalhos metódicos e pacientes dos historiadores e sociólogos (J. Verdes, J. Rougerie, J. Maitron e M. Rubel), resta-nos auscultar a implantação e o peso da Internacional. Não restam duvidas que quanto mais se acumulam os conhecimentos sobre a A. I. T. mais se confirma que ela foi «uma grande alma» com um corpo minúsculo. Em 1870 o número dos internacionais de todas as secções francesas oscilava entre os dois mil e os dois mil e quinhentos indivíduos. Na Suíça, uma estimativa, considerada optimista por alguns historiadores, apresenta um balanço de seis mil filiados. Quanto a Portugal, eles eram menos de quinhentos, segundo a quotização enviada ao Congresso de Haia e, em Espanha, oito vezes mais que em Portugal. A Inglaterra parece ser uma excepção, sendo o número máximo dos militantes britânicos avaliado em cinquenta mil no período áureo de 1867. Os dados reais não apresentam nada de comum corn «os milhões» imaginados pelos ideólogos profissionais. O que fez da A. I. T. «uma grande alma» e lhe deu um peso excepcional foi o facto de ter encarnado efectivamente as aspirações sociais de milhões de trabalhadores de todo o mundo e de corresponder à tendência inerente ao movimento das massas operárias para se organizarem, quer no plano nacional, quer internacional. De certo modo, a Segunda Internacional foi o percurso inverso da A. I. T.

Quanto à análise dos papéis desempenhados por Marx e Bakunine dentro da Associação, ela, seria despropositada nesta modesta comemoração do centenário da constituição da Federação de Lisboa. Contentamo-nos, por isso, em emitir sucintamente a nossa opinião pessoal. Marx foi, sem dúvida, o elemento que melhor apreendeu as tendências particulares e gerais do movimento operário. Só assim ele as poderia ter elaborado teoricamente, como o fez, durante duas décadas. Dentro da A. I. T., Marx nunca representou um partido, uma seita secreta, nem teve jamais um órgão de imprensa exclusivamente seu, ou que fosse o porta-voz das suas opiniões. Corn excepção de Engels, as opiniões de Marx nunca representaram de maneira imediata outra coisa senão ele próprio. Se a realidade exterior as caucionava isso devia-se ao facto de exprimirem de maneira justa essa mesma realidade. Quanto a Bakunine, as nossas conclusões são bem diferentes.

Não somente ele foi «o conspirador oculto», o «animador de seitas» secretas, o «homem de partido» por excelência, mas o seu comportamento autoritário (bem funesto para Mazzini e outros) está na linha tradicional dos revolucionários russos.


(1) Congresso que só pôde ser realizado em Setembro do ano imediato em Genebra.

(2) Veja Le Mouvement Social, Paris, Abril-Junho de 1965 e Cahiers de l'I. S. E. A., Paris, Agosto de 1964.

(3) Está neste caso César Nogueira: Notas para a História do Socialismo em Portugal (1871-1910), saído da tendência possibilista portuguesa. Só a inexistência' de um trabalho sério e sistemático sobre o socialismo em Portugal tem tornado indispensável a sua prosa de perfeito burocrata da II Internacional. Muito mais grave é o conjunto de nota-s da autoria de Emídio Santana que acompanha a reedição do excelente livro de Manuel Joaquim de Sousa O Sindicalismo em Portugal. Se o livro em si contém pontos obscuros, imprecisões, algumas não-verdades e, sobretudo, silêncios -sobre certas questões escaldantes, as notas da 3.' edição são perfeitamente lamentáveis. Além de meterem no mesmo saco anarquistas, sindicalistas, sindicalistas-revolucionários e anarco-sindicalistas (o método faz o historiador), E. S. prend ses désirs pour des réalités, fazendo afirmações (notas 2, 3, 4, 8, 9, 12, 14, 19, etc.) que fariam corar de vergonha M. J. de Sousa.



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